Tenha pensamento crítico, tenha pensamento crítico. Ou pior: tenha espírito crítico, porquê muito me lembra um companheiro. Era essa a postura que deveríamos adotar se pretendíamos lucrar o mundo e, com alguma sorte, sermos felizes. Só esqueceram de manifestar que “o êxito é um impostor”, porquê muito me diz um companheiro, o mesmo. E que a felicidade que o tal do pensamento/espírito crítico nos promete não é exatamente felicidade.
Estava pensando nisso outro dia, depois de reler as escassas reações ao texto em que falo sobre a premência de trocar os improdutivos debates por conversas. E, quando dei por mim, já havia sido transportado para uma sala de lição do saudosíssimo Escola Madalena Sofia. Onde, sentada sedutoramente na mesa, a linda professora Liuta enfatizava a premência de termos espírito crítico. Ou pensamento crítico.
Boas intenções
Confira:
A intenção, quero crer, era boa. Liuta não queria que absorvêssemos o mundo porquê ele nos era oferecido. Ela queria que filtrássemos o mundo de contrato com o nosso conhecimento e os nossos valores. Outrossim, ela falava com uns olhos irresistivelmente azuis e apaixonados. Tanto que eu, aos 14 anos, não resisti. E quase mudei meu nome para Paulo Pensamento Crítico Polzonoff.
No pessoal e no profissional
Até que um dia, muitos e muitos anos depois, me vi diante do crítico, maldizendo a pobre professora que, tenho certeza, só queria meu muito. Eu estava em crise. Finalmente, tinha feito o que ela e outros mestres me ensinaram (tenha espírito crítico!) e isso só havia me causado problemas, tanto no pessoal quanto no profissional, porquê diria o Faustão. O crítico, porquê é de praxe, não resolveu zero. Continuei invocando o maligno espírito crítico – e me ferrando. Até que recentemente entendi.
Erro alheio
Entendi que o espírito crítico, transformado primeiro em pensamento e depois em ação, estimula a vigilância e a fiscalização permanentes. Parece permitido, né? O problema é que estamos falando da vigilância e da fiscalização do erro alheio. Sempre alheio. Isso nos transforma em hipócritas que ignoram a trave no próprio olho a término de acusar o cisco no olho alheio (Mateus 7:3-5). E em cínicos que vagam à toa em procura de um varão bom, ainda que imperfeito, no qual não acreditamos.
Erros & errados
E o tempo todo é assim. Na política, nas artes e nas conversas, sem falar no jornalismo, atividade sátira por superioridade, estamos o tempo todo falando que Fulano errou, Beltrano errou e Sicrano não deixou por menos e errou também. E você está errando e todo mundo está errando e, se duvidar, até os marcianos estão errando. Erros, erros, erros. Quem invoca o maligno espírito crítico se vê encurralado de erros & errados por todos os lados.
Pensamento Reflexivo
Essa tendência à sátira jacente, confesso já no título deste texto, destruiu minha vida. Destruiu? Minto. Continua destruindo sempre que abro a guarda e cedo à compulsão de indicar o erro alheio. E por que faço isso? Para a minha própria gratificação. O que, quero crer, acontece com menos frequência depois que abandonei o Pensamento Crítico e passei a adotar o Pensamento Reflexivo (patente pendurado), que consiste basicamente em olhar para dentro de si ou num espelho, e reconhecer sua própria imperfeição antes de invocar o outro de infame. Mesmo que ele seja.
Experimente!
Experimente agora mesmo, ao ler leste texto. Ou melhor, experimente no texto de um responsável do qual você discorda visceralmente. Vai lá que eu espero. Mas tem que olhar muito para dentro de si, hein. Mais fundo. Mais, vamos, você consegue! Você é capaz de continuar vendo o erro alheio; mas, se usou o Pensamento Reflexivo de contrato com o manual de instruções, provavelmente agora se sabe não muito melhor e talvez até pior em outros aspectos. Viu? Não doeu.
Efeitos colaterais
Se seu objetivo, mas, for o tal do vitória e da felicidade (que não é felicidade, você sabe), não posso prometer a eficiência do Pensamento Reflexivo. E devo informar que entre os efeitos colaterais está uma ligeiro melancolia e uma incômoda, mas plenamente suportável, sensação de fracasso. Mas a silêncio que o Pensamento Reflexivo lhe dá, sobretudo diante da injustiça e da peta que reinam no mundo, compensa. Ah, se compensa.
Por isso, recomendo: Pensamento Reflexivo. Disponível nas melhores cabeças e principalmente nos maiores corações.
Um amplexo do
Paulo
Asteriscos
* Acabei de desvendar agora, agorinha mesmo, neste exato momento que a professora Liuta faleceu e ganhou até obituário aqui na Jornal do Povo. Que Deus a tenha.
** Sei lá se alguém lê esta epístola até o término, mas não posso deixar de recomendar a leitura de How Dante Can Save York Life, de Rod Dreher. Infelizmente o livro ainda não está disponível em português. Trata-se de uma jornada pessoal do responsável pelo inferno, purgatório e Paraíso da Divina Comédia. Não se deixe enganar pelo título vendedor (olha o espírito crítico aí!); é um daqueles livros que mudam a vida da gente.
*** E tem mais: de vez em quando a gente precisa simplesmente deixar o espírito crítico e encarregar nas pessoas. Finalmente, nem todo mundo quer nos prejudicar e enganar. Essa suspicácia jacente acaba com a gente. Tá louco.
[Esta coluna é uma reprodução da carta que chega à caixa postal dos assinantes toda sexta-feira. Se você ainda não se inscreveu, lá em cima, logo depois do primeiro parágrafo, tem um campo para isso].