É quase uma verdade absoluta: “Ah, lá fora é muito melhor.” Se você perguntar para qualquer pessoa no Brasil onde estão as melhores oportunidades para inovação e tecnologia, a resposta será automática: Estados Unidos, Europa, os grandes centros. A gente ouve isso tanto que começa a confiar que, porque vivemos no Brasil, estamos um passo detrás. Finalmente, eles são países de “primeiro mundo”, com infraestrutura de ponta, aproximação facilitado a capital e uma cultura mais “avançada”. Só que a verdade não é muito assim.
Recentemente, passei quatro meses viajando por 14 países uma vez que nômade do dedo: EUA, Países Baixos, Itália, Bélgica, Portugal, Espanha, França, Mônaco, Suécia, Dinamarca, Reino Uno, Alemanha, Polônia e República Tcheca. Foi uma experiência que me deu a oportunidade de ver de perto o ecossistema de inovação desses lugares, participar de eventos de tecnologia e negócios, e conversar com investidores, startups e aceleradoras locais. E sabe o que eu descobri? O Brasil pode não ter a mesma infraestrutura, mas em termos de talento, originalidade e capacidade de realização, não estamos zero detrás em termos de tecnologia e inovação. Em muitos aspectos, na verdade, estamos na frente.
Quem sabe, em alguns anos, ao invés de olharmos para fora com tanta surpresa, outros países estarão olhando para o Brasil uma vez que o próximo grande meio de inovação
Se há um pouco que eles têm de dissemelhante, com certeza é a infraestrutura. Algumas leis são mais favoráveis ao empreendedorismo, o aproximação a capital é menos burocrático e muito mais numeroso, e o ecossistema de inovação já está mais consolidado. Isso facilita o caminho para muitas startups decolarem mais rápido. Enquanto isso, aqui no Brasil, o envolvente regulatório para a inovação é mais reptante, o aproximação ao capital é uma missão complicada (por que alguém vai investir em startups se pode ter um retorno de 12%+ a.a na renda fixa?) e a burocracia nos persegue em cada passo.
Mas o que eu percebi ao longo dessas viagens é que não é só a infraestrutura que faz o sucesso de uma startup ou de um empreendedor. A originalidade, a capacidade de inovar e de se adequar às adversidades contam muito, e nisso, o brasiliano é vencedor. Estamos acostumados a driblar desafios que muitos empreendedores estrangeiros nem imaginam. Se há um problema, a gente dá um jeito, se não há recurso, a gente cria uma solução. Essa resiliência e essa capacidade de improvisação são atributos que nos colocam em um patamar de competitividade global. Eu faço uma aposta com quem quiser: pegue um empreendedor de sucesso lá fora e o faça principiar do zero no Brasil, sem poder usar moeda ou contatos prévios, e a chance dele dar visível de novo é muito mais baixa do que se fizer a mesma coisa com um brasiliano no cenário inverso.
Outra coisa que muitos não percebem é o tamanho do nosso mercado. O Brasil é um dos poucos países no mundo que pode se dar ao luxo de olhar exclusivamente para o seu próprio mercado. Com mais de 200 milhões de pessoas, somos um dos maiores mercados consumidores do planeta. Para efeito de conferência, países uma vez que Holanda, Bélgica ou Dinamarca, por exemplo, têm que pensar em uma estratégia global desde o primeiro dia, porque seus mercados internos não sustentam grandes expansões. Isso, porém, é uma faca de dois gumes. Ter um mercado interno enorme é uma vantagem incrível, mas também pode nos limitar se ficarmos presos à ideia de operar exclusivamente localmente. Temos que ter essa visão global desde o início. A Índia, a China e os Estados Unidos têm grandes mercados, mas estão incessantemente buscando expansão internacional. E o Brasil deveria fazer o mesmo em termos de inovação. Temos empresas de tecnologia extremamente competitivas, que podem disputar de igual para igual em qualquer lugar do mundo, principalmente quando falamos de serviços financeiros.
Serve de exemplo a empresa de pagamento sueca Klarna, que levantou um totalidade de 4 bilhões de dólares em rodadas de investimento desde 2005. O seu diferencial? Nas palavras da própria empresa, “Buy now, pay later”, ou, pra ser mais evidente, permitir que e-commerces ofereçam pagamento em até 4 parcelas. Nossos amigos gringos não têm ciência do noção brasiliano das 12x sem juros no cartão de crédito ou do carnê das Casas Bahia.
Alguma coisa que reparei nos Estados Unidos e na cultura de startups em universal, que realmente acho que deveríamos pensar bastante sobre, é uma vez que o fracasso de uma empresa, desde que não envolva fraude ou comportamento criminoso, não é visto uma vez que um estigma ou um pouco para se envergonhar. Pelo contrário, é considerado uma oportunidade de aprendizagem valiosa. O famoso mantra “fail fast, fail often” reflete essa mentalidade: quanto mais rápido você falhar, mais cedo poderá aprender e ajustar sua estratégia. Aliás, o indumento de que a falência de uma empresa não costuma afetar diretamente a riqueza pessoal do fundador, graças à estrutura de proteção permitido e financeira, encoraja uma cultura de maior tomada de riscos. Empreendedores podem se lançar em novos projetos sem terror de perder tudo, o que impulsiona a inovação e a ousadia no ecossistema. Essa abordagem é um pouco que ainda estamos desenvolvendo no Brasil, onde o fracasso muitas vezes carrega um peso social e financeiro muito maior.
O empreendedor brasiliano não é pior, e muitas vezes é até melhor do que o europeu ou o americano. Temos originalidade, adaptabilidade e uma resiliência que poucos conseguem igualar. O que falta? Uma infraestrutura que nos apoie melhor, e uma mentalidade global. Mas, de resto, estamos prontos para competir no cenário global de startups. E quem sabe, em alguns anos, ao invés de olharmos para fora com tanta surpresa, outros países estarão olhando para o Brasil uma vez que o próximo grande meio de inovação.
Leandro Navatta, formado em Sistemas da Informação pela Universidade de São Paulo (USP), é mentor na FGV Ventures, aceleradora de startups da Instalação Getúlio Vargas (FGV), e na Associação Brasileira de Startups.