Mais conhecida uma vez que documentarista e produtora de rádio, a francesa Sonia Kronlund acaba ter sua primeira obra literária traduzida para o português. Trata-se do livro “O Homem de Mil Faces: A História Real do Brasileiro que Enganou Dezenas de Mulheres pelo Mundo”, publicado pela editora Vestígio.
Neste trabalho, Sonia investiga a trajetória de um impostor (de quem nome real é Ricardo, mas o sobrenome ela prefere omitir) que assume múltiplas identidades para dar seus golpes – sempre explorando os desejos, carências e expectativas das vítimas.
A seguir, você acompanha uma secção da passagem do falsário por Paris, onde ele finge ser um médico recém-chegado de uma missão humanitária na África.
Em 14 de novembro de 2015, no dia seguinte à longa noite dos ataques ao Bataclan e aos cafés parisienses, por volta das seis horas da manhã, Marianne vê Alexandre, seu companheiro, percorrer para o hospital Louis Mourier, em Colombes, onde ele trabalha uma vez que cirurgião torácico.
O jovem par de 30 e poucos anos mora em Paris, perto do Conduto Saint-Martin. Eles compartilham o vasto estúdio branco de prateleiras coloridas que Marianne comprou e renovou dois anos antes. Ela é ilustradora, procura consumir vitualhas orgânicos, frequenta os cinemas do Conduto e as exposições mais comentadas.
Os atentados ocorrem a poucos passos de sua morada. Eles ficam em choque. Sentem-se atingidos, visados. Ao transpor, Alexandre já sabe que seu dia será difícil. Seu patrão havia permitido que dormisse em morada, mas os feridos na fileira de cirurgia já não podem esperar.
Quando ele volta, à noite, está assolado. Tem o semblante sombrio dos piores dias. Desaba no sofá, mudo, quase prostrado. Naquela noite, o par havia combinado com muita antecedência de tomar um {aperitivo} na morada de vizinhos. Alexandre não tem forças.
Marianne diz com gentileza que ele não pode permanecer daquele jeito, que transpor o ajudará a ventanear as ideias. Ele se deixa convencer. Assombrado por seu dia, ele acaba contando o que viu e viveu.
Djamila e Olivier, os vizinhos, nunca se esquecerão daquela noite em que todos começam a chorar quando Alexandre descreve os pacientes baleados, mutilados e paralisados que precisou operar. Desmoronam quando ele fala de uma jovem, ferida no Bataclan, que não conseguiu salvar, morta na mesa de operação. Do horror de ter que anunciar ao pai a morte da filha, as palavras que precisou encontrar.
Djamila e Olivier ficam impressionados com sua simplicidade, seu jeito simples de ser. Ele fez o que precisava ser feito, zero mais, mantém a sobriedade. Diz que os anos de juventude trabalhando uma vez que médico de guerra para a Médicos Sem Fronteiras o ajudaram a encontrar os gestos, o distanciamento necessário
É a primeira vez que menciona, de maneira breve, essa experiência, em sua maior secção, no Sudão. Ele não se vangloria, continua despreocupado. Mas foi graças a essa experiência que entendeu alguma coisa perturbador sobre os pacientes daquele dia: algumas das balas que extraiu dos corpos não tinham sido disparadas pelos terroristas, mas pela polícia.
Djamila e Olivier se sentem gratos. Embora tenham pretérito o dia atordoados em frente à televisão, revendo as imagens dos ataques, vão dormir quase orgulhosos de saber uma das raras pessoas que se fizeram úteis naquele dia funesto.
Quando Marianne fala de seu pretérito com Alexandre, na pequena rua florida onde ela ainda mora, quando repassa os fatos com os vizinhos que, desde portanto, a apoiam incondicionalmente, aquela noite permanece uma vez que um dos momentos mais assombrosos de sua vida. Pois zero do que Alexandre contou é verdade.
Marianne sabe disso agora. Alexandre nunca pisou naquele hospital. Ele não é médico. Ele nem mesmo se labareda Alexandre.
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No início da história deles, a jovem Marianne concorda em jantar com Alexandre sem grande exaltação. Ela acha seu estilo burguês, um pouco travado, não faz seu tipo. Daqueles que usam camisa para dentro da calça, esse tipo de pormenor.
Mas com o passar do tempo ela se deixa ocupar por sua gentileza, suas atenções, pela gulodice persistência com que ele a envolve, que ela atribui às suas origens brasileiras: ele cresceu no Rio de Janeiro, onde estudou Medicina.
Depois de passar uma dezena trabalhando em missões humanitárias na África, seguiu até a França o colega Jean-Yves, da Médicos Sem Fronteiras, que o ajudou a conseguir um ocupação no hospital de Colombes. Uma vez que estrangeiro, precisou refazer secção dos exames.
Mas agora está tudo pronto, Alexandre quer se estabelecer, erigir alguma coisa. Em pouco tempo, parece enamorado, se mostra sentimental. Marianne começa a se envolver, mas mantém a cautela.
Ele é unanimidade entre as pessoas a seu volta. Sua família, seus amigos, todos adoram aquele rapaz tão atencioso, tão gentil, tão prestativo. Também é um varão bonito, um espécie de latin lover, superior, possante, de olhos castanhos e pele bronzeada.
Seus amigos insistem: Agora que você finalmente encontrou um faceta que parece sério, que quer se envolver, aproveite.
Ela é uma jovem tranquila, estruturada, de voz suave e pausada. Tem uma vida em que cada coisa parece no lugar. A delicada palor de sua pele não esconde uma grande mandamento. Não sei por quê, mas quando penso nela vejo alguma coisa muito “francês”.
Ela continua próxima dos pais, que vivem fora de Paris, separados mas bons amigos. Alexandre está na mesma situação. Seu pai, Francisco, é juiz no Rio de Janeiro. Sua mãe mora nos Estados Unidos, em New Jersey, onde refez a vida com um americano.
Ele tem três irmãs, com nomes que começam com a letra R: Roberta, Renata, Raquel. Seu nome de batismo, Ricardo, segue a mesma regra, mas todos o chamam de Alejandro, seu segundo nome, que ele afrancesou para Alexandre.
Em sua família, eles se telefonam todos os dias ou quase. Marianne fica impressionada com aquele clã unificado, de personalidades fortes. Ela se pergunta uma vez que encontrará seu lugar.
Roberta, a mais velha, mora nos Estados Unidos, perto da mãe, e tem dois filhos. Alexandre lamenta que ela tenha desistido de trabalhar para cuidar da família. Ele culpa o cunhado, que julga um pouco machista.
Raquel, a caçula, ainda está tentando se encontrar e gasta desmedidamente o moeda que o pai lhe envia. Alexandre gostaria que o pai fosse mais rigoroso, que não lhe desse tudo.
Renata é a mana de quem ele se sente mais próximo. Eles têm unicamente dois anos de diferença. A menos que seja Roberta, Marianne às vezes se confunde. Ela pensa, hesita por um momento, Roberta ou Renata? Portanto ela se corrige, é mesmo Roberta, a que vive nos Estados Unidos.
Marianne tenta se lembrar de todos os detalhes daquela família, ainda que imaginária, na qual viveu por meses. Não quer cometer erros sobre esses personagens muito definidos, com os quais todos os dias aconteciam coisas que ela compartilhava e vivia.
Nunca os viu em fotografias, mas ainda pode expressar a cor de seus cabelos, se são altos ou baixos. Mal podia esperar para conhecê-los.
Pouco tempo depois de se conhecerem, Alexandre descobre que a mãe está com cancro, um tipo de mieloma. Sabe que ela não tem muito tempo de vida. Os dois atravessam juntos essa provação, que os aproxima, é simples.
Alexandre passa horas ao telefone com as irmãs no Brasil e nos Estados Unidos. Marianne o apoia, se enternece e baixa a guarda.
Quando a mãe de Alexandre morre, alguns meses depois, ele vai para New Jersey. Fica muito exitante, Marianne também, por empatia.
Na volta, ele se muda para o estúdio branco dela. E começa uma especialização em cirurgia pediátrica em Toulouse, onde passa uma semana por mês. Sem querer, Marianne engravida. Fica feliz.
Ele se ajoelha diante de sua bojo, promessa que é o dia mais feliz de sua vida, chora. E logo telefona para o pai para dar a notícia. A gravidez segue seu curso. Alexandre insiste para que Marianne seja acompanhada por uma colega do hospital e para que o bebê nasça em Colombes.
Ela será mais muito atendida e, se necessário, mais muito tratada. Mas prefere uma maternidade perto de morada, em Paris, mais útil. Ele fica chateado, tenta convencê-la, mas acaba cedendo.
Também não entende por que ela nunca o visitante no trabalho. Ele a provoca, dizendo que ela não se interessa pelo que ele faz, sempre encontra uma desculpa. Para que ela possa contatá-lo a qualquer momento, ele lhe deixa o número da enfermaria do conjunto cirúrgico.
Ela deve especificar que é sua companheira, caso contrário não ousarão chamá-lo. Ele faz com que ela anote os números de suas três irmãs e de seu pai no Brasil, caso alguma coisa aconteça, nunca se sabe.
Tudo isso, vou entender mais tarde, é seu lado apostador, ele age assim pela adrenalina, pela emoção, pela diversão.
Marianne está prenha de cinco meses e meio enquanto Alexandre acumula plantões, dorme com frequência no hospital, vai para Toulouse e às vezes passa uma semana, dez dias sem voltar.
Uma noite em que ela se sente mais sozinha do que o normal, em que sua bojo está um pouco mais dura, ela tenta contatá-lo várias vezes no celular, mas ele não atende. Ela telefona para o hospital. Na recepção, a atendente não conhece ninguém com esse nome.
Marianne pensa que as listas não devem ter sido atualizadas. O número da enfermaria do conjunto cirúrgico também está inverídico. Ela começa a se preocupar. Seu coração bate mais rápido.
Em um impulso, sem pensar muito, ela digita os outros quatro números que ele deixou, do Brasil e dos Estados Unidos. Todos são falsos, não dão em zero, ou as pessoas do outro lado nunca ouviram falar em Alexandre. Alguma coisa não está fechando: é tudo o que consegue pensar.
O mal-estar começa a crescer, sobe à sua cabeça uma vez que uma grande vertigem, ela se sente à margem de um eversão. Mas se recompõe, diz a si mesma que ele deve ser unicamente um médico contratado, que não se tornou um titular do hospital e não teve coragem de lhe relatar. E que ela deve ter anotado os outros números inverídico. Agarra-se a isso. Ufa.
Alguns dias se passam, durante os quais a incerteza começa a se infiltrar por todas as frestas de suas vidas compartilhadas. Alexandre está retido em Toulouse, Marianne começa a investigar. No computador dela, que ele às vezes usa, Alexandre tem um usuário.
Zero encontra de irregular: artigos especializados, relatórios cirúrgicos, documentos administrativos do hospital. Portanto se lembra de que, antes de fabricar o próprio usuário, ele havia usado o usuário dela, com o navegador Chrome do Google.
Graças ao histórico de navegação, ela encontra vestígios de sua passagem. Havia configurado o Chrome para salvar involuntariamente as senhas de todas as contas acessadas, sem premência de confirmação. Alexandre não sabia dessa feitio.
Marianne acessa todas as contas usadas pelo companheiro poucos meses antes, tanto suas contas de e-mail, com anexos, quanto seus perfis em redes sociais, tudo. Sua vertigem logo se transforma em um mergulho abissal, uma descida ao inferno.
Ela penetra em outra dimensão: um segundo, um terceiro e até um sétimo mundo se delineiam detrás das portas que escancarou, paralisada, com poucos cliques. O choque dá lugar à estupefação.