Unicamente 45 dias detrás, o presidente Lula disse que “a única coisa errada nesse país” era a taxa de juros supra de 12%. “Não há nenhuma explicação. A inflação tá quatro e pouco, é uma inflação totalmente controlada. A irresponsabilidade é de quem aumenta a taxa de juros todo dia, não é do governo federal. Mas nós vamos cuidar disso também”, avisou.
O tal “irresponsável” é o Banco Mediano, criticado por Lula e PT desde o início do procuração. O BC vem elevando a Selic para tentar controlar a inflação e, assim, satisfazer sua missão de preservar o poder de compra da moeda. Nesta quarta (29), agora sob o comando de um escolhido do petista, a autonomia subiu o rendimento obrigatório para 13,25% ao ano. E reiterou que não vai parar aí.
A inflação “totalmente controlada” de Lula fechou 2024 em 4,83%, supra do teto da meta. Arrisca permanecer um tanto outrossim em 2025: nesta semana, a mediana das expectativas do mercado saltou para 5,5%. Já vimos coisa pior. Mesmo assim, o povo não se mostra tão confortável quanto o presidente com o aumento do dispêndio de vida.
Alguns preços, uma vez que se sabe, avançam muito além do índice universal, que é a média ponderada das variações de centenas de itens de um orçamento familiar “padrão”. A depender de quais produtos e serviços mais consome, uma família pode perceber inflação um tanto maior que a solene.
E aí voltamos ao presidente da República. Se até há pouco ele não via qualquer problema na economia além do Banco Mediano, de repente parece ter encontrado um.
“Os alimentos estão caros na mesa do trabalhador. Todo ministro sabe que o alimento está caro e é uma tarefa nossa garantir que o alimento chegue à mesa do povo trabalhador, da dona de casa, à mesa do povo brasileiro em condições compatíveis com o salário que ele ganha”, disse Lula em reunião ministerial.
E assim, uma vez que se a subida de preços fosse uma surpresa, o presidente deu a ordem para que seus ministros a resolvessem o quanto antes. O que houve em seguida não surpreende. Saíram em polvorosa prometendo soluções para já, deixando evadir até a ideia de “intervenções” aqui e ali, num ato falho revisto em seguida.
Segundo relatos de bastidores, gente do PT teria defendido inclusive a taxação de exportações para que sobre mais comida no mercado doméstico, o que tem tudo para desestimular a produção e gerar mais inflação, uma vez que testemunhou a Argentina dos Kirchner.
Lula parece ter desautorizado soluções heterodoxas, mas a originalidade do governo é sempre uma preocupação. Segue viva na memória dos produtores a memorandum da tentativa desastrada de importar arroz em seguida as enchentes no Rio Grande do Sul.
Apesar da recente invenção do presidente e do tom de urgência que imprimiu aos subordinados, a inflação dos vitualhas não nasceu ontem. Verdade que ganhou tração recentemente, mas o progresso mais possante é notado desde meados do ano pretérito.
Enquanto o IPCA universal variou pouco menos de 5% em 2024, vitualhas e bebidas ficaram quase 8% mais caros, na média. O arroz subiu 8%. As carnes, 21%. O óleo de soja, quase 30%. Leite e derivados tiveram aumento de 10% e o moca, de 40% – e tende a seguir em subida.
Pandemia, guerra, clima e câmbio alimentaram inflação
O que Lula e seus ministros podem fazer para resolver? Não muito, na verdade. Preço de maná é influenciado principalmente pela oferta, que varia conforme fatores que no universal estão fora do alcance do governo, para o muito e para o mal.
A redução de 9% no preço das carnes em 2023 foi provocada pelo momento favorável do ciclo pecuário. E a variação de unicamente 1% no preço médio da comida naquele ano, medida pelo IPCA, foi obra em grande segmento da colheita recorde de grãos.
Em 2024, houve o oposto. O clima prejudicou lavouras e o ciclo pecuário entrou na período de redução de oferta, uma vez que muito explica esta reportagem do colega Marcos Tosi. Qualquer refresco é esperado para leste ano, desde que se confirme a projeção de safra enxurrada.
À segmento o refrigério de 2023, o dispêndio da alimento tem subido há muito tempo. A inflação dessa categoria foi de 14% em 2020, 8% em 2021, 12% em 2022. Incluindo na conta os dois últimos anos, o aumento foi de 50%, contra um IPCA universal de 33%:
Não é um fenômeno lugar. Pandemia e guerra prejudicaram cadeias de fornecimento e eventos climáticos extremos derrubaram produções, gerando inflação no mundo todo.
O óleo de oliva e o moca estão entre as vítimas mais conhecidas do clima, que quebrou safras nos principais países produtores. Por cá, o primeiro subiu 120% em cinco anos. O segundo ficou 133% mais dispendioso.
Porquê muitos preços são definidos por cotações internacionais, qualquer ânimo poderia vir da taxa de câmbio. E aí, sim, entra o governo.
O real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram no ano pretérito, em grande segmento pela suspicácia sobre o compromisso de Lula com as contas públicas. A disparada do dólar está por trás de segmento relevante da subida de preços – da comida e de tantos outros itens que por ora não chamaram atenção do presidente.
Há quem sugira decrescer impostos, mas o campo de ação é restringido. Víveres já são menos taxados e o principal tributo, nesse caso, é estadual (o ICMS). Ampliar incentivos fiscais para empresas tende a ter pouco efeito, uma vez que demonstra a confrontação entre os preços dos veículos e as desonerações bilionárias concedidas a montadoras no Brasil.
Lula e PT subestimaram relevância da inflação
Na prática, o presidente paga o preço de ter prometido picanha e cerveja uma vez que se tivesse o virtude de colocá-las na mesa do brasílico. Talvez tenha pensado que bastaria inundar a economia de numerário público, turbinar transferências de renda e vangloriar o salário mínimo supra da inflação.
Quando a oferta não acompanha, cedo ou tarde o incitamento ao consumo acaba gerando mais inflação. Está no manual, mas Lula está visível de que os livros de economia estão superados.
Obcecados em fazer o PIB crescer a qualquer dispêndio, Lula e seu partido concentraram esforços em combater o Banco Mediano e a política de juros. Subestimaram a relevância da subida de preços na percepção popular sobre a situação econômica. E isso diz muito sobre o quanto estão conectados aos anseios e necessidades do povo.