O tenente-coronel Mauro Cid afirmou na delação premiada que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha certeza que encontraria uma fraude nas urnas eletrônicas ou que, não conseguindo, tentaria convencer as Forças Armadas a participarem de uma suposta tentativa de golpe de Estado.
“QUE o ex-Presidente JAIR BOLSONARO tinha certeza que encontraria uma fraude nas umas eletrônicas e por isso precisava de um clamor popular para reverter a narrativa: QUE o ex-Presidente estava trabalhando com duas hipóteses: a primeira seria encontrar uma fraude nas eleições e a outra, por meio do grupo radical, encontrar uma forma de convencer as Forças Armadas a aderir a um Golpe de Estado”, disse Cid em um dos depoimentos à Polícia Federal.
A delação de Cid consta em um processo dividido em quatro longos volumes que somam mais de 800 páginas e relatam, ainda, a suposta operação para adulterar o cartão de vacinação contra a Covid-19 a mando de Bolsonaro; a venda de joias recebidas de presente de autoridades estrangeiras; e o alegado “gabinete do ódio” para a “criação e repercussão de notícias não lastreadas ou conhecidamente falsas com o objetivo de atacar integrantes de instituições públicas, desacreditar o processo eleitoral brasileiro, reforçar o discurso de polarização”.
Cid também relata o que tinha conhecido da suposta tentativa de interferência no deslocamento de eleitores do Nordeste no segundo turno da eleição de 2022 pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), a atuação do hacker Walter Delgatti para encontrar vulnerabilidades na urna eletrônica, entre outros assuntos.
“Grupo radical”
No que se refere à suposta tentativa de golpe de Estado, o “grupo radical” citado por Cid era formado, entre outras pessoas, pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), pelo ex-ministro Onyx Lorenzoni, pelos senadores Jorge Seiff e Magno Malta e pelo o general Mario Fernandes – este é apontado como autor do plano para assassinar Lula, Geraldo Alckmin (PSB) e Moraes na operação intitulada “Punhal Verde e Amarelo”.
Mauro Cid revelou na delação que, em uma reunião em novembro de 2022, o então assessor Felipe Martins e um jurista apresentaram a Bolsonaro um documento que retratava o que seriam interferências do Poder Judiciário no Poder Executivo – ou seja, da Justiça na presidência da República – e que, ao final, foi apresentada uma minuta de decreto para prender Moraes e Gilmar Mendes; o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG); e a realização de novas eleições “devido a supostas fraudes no pleito”.
Ele relata que Bolsonaro pediu a Martins para realizar algumas alterações na minuta e que, após a modificação, teria concordado apenas com a prisão de Moraes e a realização de novas eleições. Após isso, chamou os comandantes das três Forças Armadas para apresentar as alegadas interferências do Judiciário no Executivo, e teria tido a concordância apenas do então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier.
“QUE o ALMIRANTE GARNIER, comandante da Marinha, era favorável a uma intervenção militar, afirmava que a Marinha estava pronta para agir”, disse emendando que a adesão foi condicionada à participação do Exército, através do general Freire Gomes, que comandava a tropa, pois “não tinha capacidade sozinho”.
“QUE o Brigadeiro BATISTA JUNIOR, comandante da aeronáutica, era terminantemente contra qualquer tentativa de golpe de Estado; QUE afirmava de forma categórica que não ocorreu qualquer fraude nas eleições presidenciais; QUE o GENERAL FREIRE GOMES, era um meio-termo dos outros dois Generais; QUE ele não concordava como as coisas estava sendo conduzidas; QUE no entanto, entendia que não caberia um golpe de Estado, pois entendia que as instituições estavam funcionando”, seguiu Cid.
Em outro trecho da delação, Cid relata uma reunião no dia 9 de dezembro de 2022 em que foi apresentada uma minuta de decreto de estado de defesa pelo general Estevam Theófilo, que diz que “reverteria o resultado das eleições presidenciais”, e que as Forças Armadas iriam cumprir a determinação.
Carta aos Comandantes
Também pontuou ter conhecimento sobre a “Carta ao Comandante dos Oficiais Superiores da Ativa do Exército” antes mesmo da publicação no dia 28 de novembro para pressionar os comandantes das Forças Armadas a aderirem ao plano.
“QUE teve conhecimento de que a carta, antes mesmo da publicação, já estaria circulando em grupos militares; QUE estavam pedindo que os militares assinassem; QUE seria uma forma de pressionar os comandantes militares a tomar uma medida mais enérgica pela situação que estava acontecendo no país; QUE não mexeu na carta; QUE não participou da elaboração nem da divulgação; QUE todos sabiam que quem assinasse a carta seria punido, pois o militar não pode participar de abaixo-assinado; QUE acredita que os militares que assinaram foram punidos”, relatou.
O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro afirmou, ainda, que os envolvidos no suposto plano de golpe de Estado estavam “romantizando” o conhecido artigo 142 da Constituição, de que as Forças Armadas teriam a atribuição de “restaurar a ordem” sob o comando do presidente da República.
Apoio de CACs
Mauro Cid também relatou na delação que Bolsonaro “não queria que o pessoal saísse das ruas”, em referência aos acampamentos montados em frente aos quartéis do Exército após o final das eleições de 2022, supostamente estimulados pelo que ficou conhecido como “gabinete do ódio”.
“No intuito de criar o ambiente propício para uma intervenção federal comandado pelos forças militares, sob o pretexto de aturarem como uma espécie de Poder Moderador”, anotou a Polícia Federal na delação.
Cid diz que Bolsonaro não interferia diretamente nos manifestantes, e que pediu apenas para os caminhoneiros não parassem o país. No entanto, relata que ele era frequentemente instigado a dar um golpe de Estado pelo “grupo radical” e que teria o “apoio e dos CACs”.
Hacker no Ministério da Defesa
Ele confirmou, ainda, que Delgatti se encontrou com Bolsonaro no Palácio da Alvorada a pedido da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e que, posteriormente, foi levado ao Ministério da Defesa para se encontrar com um general que fazia parte da Comissão de Transparência Eleitoral.
“QUE o Presidente deu ordem para DELGATTI ir ao Ministério da Defesa em seu próprio nome; QUE o ex-Presidente questionou DELGATTI sobre qual seria a vulnerabilidade da uma eletrônica; QUE o Presidente enviou DELGATTI ao Ministério da Defesa para que ele explicasse qual seria essa vulnerabilidade”, disse o tenente-coronel.
Mauro Cid afirmou que Bolsonaro “queria que o hacker mostrasse as vulnerabilidades da uma e por onde um hacker poderia invadi-las”.